sábado, 18 de fevereiro de 2017








  1. Avalanches

    Avalanches
    Rimas dissonantes.
    Veredas
    atravessava-lhe
    o cérebro.

    Perigos, trincheiras
    Sangue quente.
    O sibilar da serpente

    Com sangue frio
    Ouviu o mar
    Soluçar um grito.

    Dora Dimolitsas

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

As surpresas que a vida nos reserva
 

Quando jovem, era alegre, cheia de vida e com muitos projetos voltados para o futuro.  Tinha em mente que é na juventude que devemos criar nosso pé-de-meia. Por isso, labutei orgulhosa até conquistar meu espaço. Ainda bem que no clic da vida, acontecem imprevistos. Imprevistos que tornam nossos dias bem mais agradáveis e cheios de vigor.  Um dia, estava na feira, em pleno sábado, e um belo rapaz me olhava de tal maneira que parecia me despir. Ao notar que eu o olhava também, imediatamente se aproximou e foi logo dizendo: 
- Olá, me chamo Karilaos. Você tem namorado? Surpresa, respondi abobalhada: -  Não!  Para minha surpresa, ele pegou o carrinho de feira de minha mão e, com uma voz compenetrada, disse:   -  Bem, então, de hoje em diante, você é minha namorada.  Puxando o carrinho, seguiu e me chamou.  - Te levo em seu cafofo. Na entrada do prédio, agradeci e me despedi, mas para meu espanto, ele declarou:  - Negativo, vou subir. Quero conhecer a família de minha namorada.  Assustada e muito curiosa, peguei o elevador. Ele veio junto. Em casa, entrei pela cozinha. Ele entrou, deixou o carrinho e invadiu a casa. Entrou na sala, depois foi de porta em porta, abriu todas e eu, assombrada, pedi para minhas irmãs:  - Ninguém sai de casa hoje! Acho que este moço não gira bem da cabeça! Depois de fazer uma geral na casa toda, ele disse:   - Agora eu preciso ir. Vou levar o almoço dos meus pais, porque hoje é meu aniversário.   Disparei a rir e ele completou:   - Vim comprar almoço pronto para poupar minha mãe! Às dezenove horas, estarei aqui para firmar nosso namoro.   Eu não consegui responder nada. Ele deu tchauzinho e se foi. Atitude que me deixou preocupada, mas também muito mais curiosa.  Na minha juventude, os rapazes ainda tinham um certo respeito para com as moças e a família era muito importante. Por isso, pensei que não corria o risco de que ele poderia ser perigoso no sentido marginal. Ainda assim, morava com mais três irmãs e eu, sendo a mais velha, cuidava de todas. Por isso, insisti no meu pedido anterior: - Hoje, por favor, ninguém sai de casa!   Foi uma risada geral. Ninguém acreditava no que contei, mas, ainda assim, ninguém saiu.  Na hora marcada, em ponto, ele chegou. Pensei que precisava conversar e esclarecer as coisas. Talvez percebendo isso, ele me pegou pela mão e de modo arrebatado, foi logo dizendo:  - Eu entendi. Fui bastante precipitado, mas é que eu não sabia como fazer para não deixar você me escapar. Por isso, achei melhor ser franco de uma vez.  E assim, de surpresa em surpresa, fomos nos conhecendo.  No ano seguinte, nos casamos. Hoje, trinta e nove anos depois, este jovem ainda consegue me surpreender com sua maneira totalmente diferente de ser.   Alguns dos momentos bem característicos dele, foi logo no primeiro mês de namoro, quando ele passou a reclamar pela falta de tempo que tínhamos. Por isso, lhe disse que sempre trabalhei em três empregos, de quatro horas cada um, já que precisava fazer o meu pé-de-meia.   No dia seguinte, no ato de coragem, ele passou a me acompanhar em cada emprego e, naquele dia, ficou me esperando até o horário de sair de cada um dos lugares onde trabalhava.  
Cancelou seus compromissos (ele terminava o Curso de Eletrotécnico), só para se certificar que eu realmente trabalhava tanto, o que, na opinião dele, era impossível. Onde já seu viu uma jovem tão dedicada ao trabalho! Outra ocasião, disse que me buscaria no serviço. Na saída, ele não estava. Peguei um ônibus e fui embora, mas ouvi gritos. Curiosa, prestei mais atenção à comoção: era ele, correndo, tentando deter o ônibus na rua. O motorista parou no farol. Ele entrou no ônibus, me pegou pela mão e saímos às gargalhadas, deixando o povo no ônibus perplexo. Banhos de chuva, sentar no chão do metrô, correr atrás de ônibus.  E assim tem sido minha vida com este maluquinho, cheio de energia alegre, atrapalhado, mas foi a coisa mais importante de minha vida.   Sempre devemos estar prontos para as surpresas que a vida nos reserva.


Dora Dimolitsas São Paulo – SP 

Escritora, Poeta, Jornalista, Atriz. Com mais de 100 prêmios e um trabalho intenso em Cultura nos Espaços Culturais em São Paulo. Como Produtora Cultural, desenvolveu: Proyecto Cultural Sur/Paulista, com eventos dentro dos hospitais públicos, para pacientes, funcionários, e crianças leucêmicas e hemofílicas; eventos pela Prefeitura e Casa das Rosas; foi Coordenadora e Representante/SP da Ass. Poemas à Flor da Pele; eventos no Centro Cultural de São Paulo, Biblioteca Alceu Amoroso Lima; Biblioteca Mário de Andrade; Eventos de Rua – Ladeira da Memória (SP); Pça da República (SP); Pça. Santa Cecília (SP); Bar do Batata, Hotel Cap Cana. É Membro de várias Academia de Letras e Artes, como Falasp, Artpop (Cabo Frio), Acad. Cabista de Letras, Acad. de Letras de Niterói, Ass. Literarte, Cônsul Poetas Delmundo Bela Vista. É ainda Colunista do Jornal o Rebate e Jornal São José; Parceira Oficial do Jornal Sem Fronteiras. Autora das peças Dama de Vermelho Por Intenção e Cortejo de Baco, além dos Roteiros Os Druídas e O Segredo da Pedra da Luz, em parceria, e o Roteiro O Beethoven Brasileiro. Participou em 300 Antologias. Possui 2 livros solos: Coruja Mitológica e Fractais e Poesia.

doroty.dimolitsas@uol.com.br wwwcorujasonlinecom.blogspot.com.br